Título Original:  Delicatessen

País:  França

Ano:  1991

Duração:  99 minutos

Gêneros:  Comédia, Fantasia, Romance

Direção:  Jean-Pierre Jeunet, Marc Caro

Roteiro:  Gilles Adrien, Jean-Pierre Jeunet, Marc Caro

Elenco:

Dominique Pinon
Marie-Laure Dougnac
Jean-Claude Dreyfus

Formato:  RMVB

Tamanho:  320 MB

Legendado: Português

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Comentário:

Cheio de hibridismos de gênero, Jeunet consegue estabelecer enlaces de uma produção romântica com mistérios, passando através de uma cena dramática, para uma cômica sutilmente, o que dá ao humor negro criado pelo Diretor uma empatia pelos telespectadores.

Muitos até mesmo nem chegam a perceber o humor negro, pela naturalidade como narra os fatos e as progressões narrativas parecerem rotineiras. Completamente diferente de A arte do pensamento negativo, Delicatessen não ridiculariza os acontecimentos mórbidos que ocorrem com os personagens, parece-me propor várias reflexões sobre a vida, tornando mais digerível e até uma experiência agradável (como fora para mim).

A premissa da ideia geral da história, segundo minha interpretação, foi baseada nos moradores serem mutáveis. São desgraçados “por natureza” devido à situação que vivem; ao prédio que vivem; e à sociedade que vivem. É praticamente um “Naturalismo Cinematográfico”, porque os morados viviam e pagavam impostos ao Dono do prédio que continha uma Delicatessen em seu primeiro andar. Em troca, as pessoas pediam três refeições. Mas como acontecera uma crise na época (parece remeter uma das grandes guerras, apesar da sinopse contextualizar em um futuro apocalíptico), os personagens que eram “boas” transformaram-se devido ao momento em que viviam. Como não tinham dinheiro para pagar a carne, o açougueiro aceitava alimentos e outras ofertas (sexuais, por exemplo). Por não ter dinheiro para comprar carne, passou a matar diversas pessoas, e vendê-las como se fossem carne de animal. Os moradores de seu prédio conheciam este fato e acolheram sem intervenções. Inclusive ajudando muitas vezes o açougueiro em seu pesado trabalho, como o genro, que aceita que a sogra seja a próxima vítima, e ainda auxilia cuidando de uma armadilha, para a velha cair e parecer ter morrido pela queda.

Por causa desses acontecimentos temos o psicofisiologismo, que é a imagem desses personagens como demonstração de suas ações. Ou seja, não sabemos quais são os pensamentos do açougueiro ou da Madame que dorme com ele por comida. Entretanto, como suas aparências são nos mostradas como depreciativas, vemos que a psique destas mesmas também é. Isso porque a imagem revelou o interior das personagens. Notemos quando tem uma fila, no início do filme, com umas 5 pessoas na fila, esperando para ser atendido, uma delas é a Madame. Ele a atende primeiro, deixando claro o seu interesse por ela. E depois, quando esta sai, observa seu andar e seu corpo como se fosse um animal, um porco!

Sem necessidade de falas ou subentendidos, Jeunet expõe o que os personagens são com sequências curtas e muito fáceis de entender, é a vida real. Assim também fazia o Mestre Hitchcock, que só utilizava do diálogo somente quando não havia recurso para reproduzir o que se pretendia, logo não havia narradores-personagens para demonstrar todas as suas ideias como em Clube da Luta. A intenção era reproduzir uma obra puramente através da imagem.

O mistério e medo surgem quando um palhaço, Louison, que está desempregado. As personagens, por causa de sua transformação, devido à crise, são mal-humoradas e antipáticas com o novo morador que desconhece da artimanha canibal, exceto duas crianças e Julie, a filha do Açougueiro, o tratam bem. Logo o açougueiro vê que este trabalha direito para pagar a pensão, então o deixa em paz… Por algum tempo. É quando percebe o seu envolvimento com a sua filha que se choca, e ela implora para mantê-lo vivo por mais algum tempo. Quebrando com o clima de inocência que tínhamos da moça, além de entendermos que ela “assisti tudo e não faz nada”, o pai diz que não é a primeira vez que ela pede para ele deixar de matar algum rapaz.

Mesmo que Julie se irrite e compartilhe com Louison seus temores, este parece muitas vezes no meio da obra dizendo: “No fundo são pessoas boas”. Ele prefere ignorar o caráter daquelas pessoas (individualista) ou ainda, crer que os motivos delas para fazerem isso são muito fortes (romântico). Acho que são estas as maiores partes do humor negro, em meio a tantas atrocidades, o protagonista dizer simplesmente que está tudo bem. Acredito que, devido a esta visão fantasiosa, que a fotografia do filme apareça tão saturada e viva, por Louison querer distorcer as certas coisas devido aos contrastes e ao fantástico, igual ao circo. Isso é nítido nas horas que começa a compor música com serra, com o pincel, com os sons humanos dos vizinhos. É uma fotografia magnífica, que inclusive me remete à lomografia e ao em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

É muito agradável perceber estas ideias nos filmes de Jeunet. Encontramos muitos símbolos minuciosos, que nem consegui escrever sobre ele de tão fascinada que fiquei, além do que, não tive tempo. Parece que Amélie é um filme romântico, e o Delicatessen um naturalista, qual será o estilo do próximo filme que verei de Jeunet?

NOTA IMDB

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