Um cheiro forte de café invade suas narinas a ponto de fazê-las tremer, faz suas pálpebras abrirem suavemente em uma manhã qualquer. Ao espreguiçar-se percebe tão lento como se ainda houvesse um sono enorme em você. Os seus movimentos tornam-se puramente conscientes e de repente uma câimbra começa pelo dedão do pé direito e você percebe que logo irá invadir sua perna e não saberá o que fazer como já ocorreu outras vezes. A dor, como previsto sobe pela sua perna e é insuportável, alcança seu joelho e a sua única ação parece ser puxá-la para cima, como se fizesse um spaccato, e a dor esvaece aos poucos. Todo esse percurso durou horas e você sente que teve plenamente consciência de seus movimentos, desde a dilatação do nariz com o odor do café até o primeiro passo que dá ao levantar da cama, mas parece que tudo isso demorou horas para acontecer, mesmo assim não sente-se culpado de ter demorado tanto tempo para levantar da cama, e o resto do dia inteiro seus movimentos progridem dessa forma intensa e lenta.

Será que todas as pessoas conseguem tentar sentir seu próprio corpo? Como o nosso corpo executa os movimentos tão rapidamente, muitos não tem consciência deles enquanto os fazem. Não sentimos todos os nossos músculos e muitas pessoas não sabem o processo biológico complexo que ocorre para isso. Algumas pessoas malham algumas partes do corpo, mas não conseguem sentir ou mover todos os próprios músculos devido aos equipamentos que condicionam seu corpo ao movimento repetitivo, fazendo que outros músculos se atrofiem lentamente.

A cena que abri esse texto já me ocorreu inúmeras vezes inclusive no meio da noite, pela falta de oxigênio que meus músculos sofriam por me exercitar tanto ao dançar. Mas nunca me arrependi disso, pois é maravilhoso sentir seu próprio corpo. Algumas vezes senti alguma parte do meu corpo se movendo que nunca havia sentido antes. E isso me deixava feliz, como se alguém me dissesse uma qualidade que eu tinha que eu nunca antes notara.

Essa consciência do corpo é muito buscada através do Butoh, uma dança contemporânea iniciada no Japão pós-2°Gerra Mundial.

Há uma dança, denominada Bugaku, que perduraram 1200 anos no Japão nas mãos da alta sociedade, e após a 2°Guerra foi evidenciada. Aliás não só essa dança, o Japão inteiro ficou exposto ao mundo, toda a sua cultura e seu povo. A sexualidade já era falada no resto do mundo, coisa que no Japão era desprovida de voz. As mulheres sempre submissas, e os homens sempre imponentes o que escondia dos outros, o que estava dentro deles mesmos. E de repente, há pessoas de cores de pele, de cabelo e olhos diferentes das deles, que falam diferentes, que usam roupas diferentes. Estavam expostos.

Imagine se em vez de levantar, de acordar com o cheiro do café, se em vez de abrir minhas pálpebras eu não conseguisse me levantar. Como se todo o meu corpo estivesse morto por querer, por acomodar-se assim devido às 8 horas que dormi, como se por inércia ele devesse continuar ali, quieto, com a respiração lenta e o escuro em minha mente, como se estivesse quase morta. É assim que vejo muitas pessoas, e o próprio Japão antes da Guerra. Tudo o que ocorria era muito sigiloso, e poucos sabiam. E de repente a exposição.

Tal exposição é incrivelmente representada pelo Botoh. Uma dança e uma filosofia contemporânea, que surge em meio ao contexto que contei. É a expressão desses novos sentimentos nunca antes sentidos. Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno, os criadores da arte Butoh, acharam nas vanguardas europeias que encontraram o choque cultural, o expressionismo, o cubismo e o surrealismo, e as danças milenares japonesas, como Nô e Bugaku, a inspiração para a criação de sua arte.

Não há uma coreografia, e sim movimentos que são conhecidos pelo Bugaku, que imitam a natureza e a força de guerreiros samurais em suas batalhas, que se perderam no tempo e que nunca retornaram, pois todos foram mortos na 2°Guerra.

Mas como esses movimentos perduraram? Como manter todos os séculos de cultura em meio ao ocidente?

Jean Cocteau me esclareceu isso: “A obra continua a viver como os relógios no pulso de soldados mortos”. Quer dizer que, a arte sempre continua a viver, mesmo que imperceptivelmente dentro das pessoas. Há os que conseguem expor. E praticar o Butoh é para qualquer que esteja disposto e que tenha conhecido alguém que já morreu.

Não devemos temer a morte, pois a vida só existe devido à morte. E às vezes “vivemos demais”, nos movemos rápidos demais, pensamos rápidos demais, e não paramos para ver a morte. Não paramos nem para perceber a sombra que segue os nossos pés, a companheira mais fiel de todos os homens. Se, não pararmos como vamos saber quem somos? Como conseguiremos nos expressar, se todos os dias acordamos, e fazemos as mesmas coisas sem se importar com o antes e o depois?

Muitas pessoas acham inútil conhecer o passado de sua família e de sua nação. Mas será que se perceberem, ao ter filhos, que eles são a continuação de suas vidas? E que assim como eles, vocês e eu somos a continuação de outras vidas? E perpetuamos nesse mundo sem propósito porque temos a liberdade suficiente para escolher qual propósito queremos?

Tudo isso é o que eu refleti ao ver uma dança… O Butoh. Porque ele é o caos da dança. Os artistas se pintam de branco, usam quimonos muitas vezes de uma cor só, diferentemente se seus antepassados que dançavam Bugaku.

Há uma sombra preta em torno dos olhos, e um circular vermelho exposto no canto de um dos olhos, e a boca pintada como uma boneca de porcelana.

Os movimentos são muito lentos, pois há um esforço maior que o físico, que vem do interior. É a execução de todos os músculos, por isso a necessidade da lentidão, além do que, não há nada de errado com a lentidão e a reflexão que se faz ao realizar essa dança.

Os dançarinos não creem que estão dançando sozinhos, e sim com sua sombra. Em memória dos mortos expressam os seus puros sentimentos. Se expõem para eles, como o seu país se expõe ao mundo.

“A Dança é um caminho de vida, não uma organização de movimentos. Minha arte é uma arte de improvisação. É muito perigosa. Eu tento revelar com meu corpo todo peso e mistério da vida, seguir minhas memórias até o útero de minha mãe.” Kazuo Ohno.

 

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