Muitos, inclusive atores, modelos e influentes famosos dizem em seus discursos que almejam um mundo melhor, além de muitos conhecidos nossos do dia a dia. Para melhorar o mundo temos que conhecê-lo, não simplesmente ver os defeitos e criticar, além de ver o que falta, temos que entender os acontecimentos e o que ocorria com as pessoas. Para conseguir mudar o mundo precisamos não só de história, mas ela associada à literatura, à música, às pinturas, à arquitetura, e, por que não à moda. Por isso não penso que a moda seja algo tão banal. Não só hoje em dia, mas há muito tempo houve lançamento de moda, trazendo as novas tendências e pregando algumas coisas que fazem muitos pensar que se não seguirem aquilo serão antiquados. Esta moda que acha que sabe o que diz é banal, e torna banal àqueles que a seguem cegamente.

Não é esta moda que digo, e sim aquela que acompanha o homem. Antes a roupa servia apenas para proteger do frio e era pele de animais. Como hoje a sustentabilidade é algo muito valorizado, as peles passaram a ser sintéticas, e não servem mais para proteger do frio, são muito mais que isso.

A moda se industrializou e encontramos poucos que querem “ser costureiros”. A palavra moda esvazia-se de sentido, no Brasil, daqueles que vão a desfiles como o Fashion Week, muitos nada entendem do assunto, apenas deslumbram-se por poder adquirir peças caríssimas e de grandes estilistas. As mídias acompanham superficialmente tais desfiles, o que contribui para a crítica negativa da moda, a população não entende moda, porque uma roupa faz sucesso e outra não, talvez por isso não seja considerada por muitos, ou até seja senso comum que moda não é arte. Mesmo assim, precisa ser criticada, porque, como disse Colin MacDowell: “Quando nunca se rejeita nada, as críticas positivas perdem o sentido”, ou seja, se não sabemos o que é ruim, como saberemos o que é bom?

“A moda não está na passarela, está na rua” (Adrienne Chanel). Eu, você e todos que andam pelas ruas a faz, e não os vestidos que a Dior lança atualmente que ninguém, a não ser Lady Gaga, sai com ele na rua, e que custam mais que sua casa.

É uma lástima, nesses desfiles vemos um milhão de pessoas, antes nos desfiles da Chanel e Saint-Laurent, eram fechados para 80 pessoas que davam valor para aquilo e criticavam, não iam apenas para consumir, era para admirar a alta costura. Hoje, com a massificação da cultura, vemos massificação do próprio corpo, os modelos são padronizados, tem que ter acima de 1,73 de altura, no máximo 65 kg, ser proporcional e simétrica se for mulher, e por serem padronizadas, padronizam a mulher mundial. A japonesa tem estatura média de 1,50, como poderia ser modelo? Ou ainda, será que não pode pesar acima de 65 kg e ainda ser bonita? Penso que a beleza está na diversidade. Por isso modelos como Twiggy são verdadeiros ícones de sua época, anos 60, com seus cílios postiços, pequena segundo o padrão (1, 57m e 42 kg), cabelos curtos tipo hominho, parecia para muitos uma bonequinha andrógena assexuada. Acredito que quando se tem o cabelo curto e se a mulher for feminina, tal feminidade deve aparecer em outros elementos do corpo, Twiggy fez certinho. Hoje em dia, parece que se substituirmos as modelos por cabides a roupa será a mesma coisa. Não tem mais graça desfiles para mim.

O salto Anabela (que eu abomino), o cinto fino e a disseminação do xadrez, surgiram durante a 2° Guerra Mundial, pela necessidade surgiram coisas criativas que fazem sucesso até hoje, como o frio era intenso, as mulheres tiveram que “se virar” e aí costuravam peças de roupa e edredons para criar casacos, o cinto ficou fino por que o couro na França era escasso, havia em sua grande parte sido “tomado” pela Alemanha, e o salto de madeira substituía o couro das solas. Dior naquela época foi um “salvador”.

O batom tem formato de bala, já perceberam? Antes eram líquidos e vinham em caixinhas redondas pequenas, mas depois da 1° Guerra Mundial, a indústria que havia sido de balas virou de batons para continuarem a usar as mesmas máquinas, anos mais tardes, com a 2° Guerra, o batom tornou-se escasso devido à substituição de novo da produção por balas.

O xadrez hoje é símbolo de escoceses e de punks, na realidade datam algumas descobertas de 3 a.C., porém seu uso foi intensamente caracterizado no século XVIII para diferenciar as famílias e clãs tanto na Escócia, como na Dinamarca, Inglaterra e Alemanha. Tal hábito me é fascinante, assim como os brasões das famílias, pena que se perderam e hoje não damos importância a não ser que a Dolce&Gabbana o insira em sua próxima coleção, e ainda consideramos original.

Existem grifes que nos fazem acreditar que aquela roupa é única e que ao possui-la teremos originalidade. Hoje, tal originalidade é vendida, podemos achar em qualquer lugar, basta esforço, algo que nos caracterize de alguma forma, mas que também caracterizará outros. Por isso é muito importante questionar. Não vejo nenhum problema em usar roupas de marca, existem muitas coisas muito lindas, de qualidade e que não são caras. É viável pagar 500 reais em um sobretudo da Colcci, mas não acredito ser útil pagar 1150 euros em uma bolsa estilo carteira para festas, que cabe um batom e um celular, da nova coleção da Saint-Laurent.(http://www.ysl.eu/en_GB/shop-products/Women/Handbags/Chyc/ysl-chyc-clutch-in-brown-python_804440386.html?recref=#!{“products”:{“265701EMF0G”:{“size”:”U”,”color”:”2123″}}})

No Brasil existem estilistas que parecem trazer para seus desfiles uma copia mais moderna de estilistas mais antigos ou de outras partes do mundo. A mulher brasileira é diferente da Americana, da Francesa e da Japonesa, e a mesma coisa o Homem, não adianta querer trazer tendências de outras partes do mundo e de outras épocas apenas, precisa ser pesquisado e entendido o que a população quer e veste. Existe o Clássico que cairá bem sempre, como o Pin-up, consagrado por Betty Grable e copiado até hoje por Katy Perry, o preto básico, invenção de Chanel e eternizado por Audrey Hapburn, entre outros estilos que nunca morrerão.

O que vemos no Brasil é infelizmente uma homogeneidade com os Estados Unidos. A calça Jeans se enraizou no vestuário brasileiro, assim como bonés e camisas: I ❤ NY. Acontece que a imagem é uma droga, ao vemos ela, associamos a muitas coisas, acreditamos que se formos daquele jeito, estará tudo bem. Essa é uma das mais antigas e mais usadas técnicas de venda utilizadas pela publicidade, que é uma celebridade usando algum produto e associamos aquilo à qualidade. Por isso prefiro as palavras, e tento fugir desse vício que é a imagem, vendo sempre a tênue linha entre vaidade e futilidade. “A beleza é cara”, diz a ex editora da Vogue Regina Guerreiro, “Com ela se tem muitas coisas fáceis, mas coisas superficiais”. Por vermos Angelina Jolie usar Ralph & Russo, que se usarmos seremos bela, elegante e deslumbrante que nem ela.

Mas o que adianta ter roupas de marca, por que temos? Muitas vezes pessoas compram certas marcas por status quo, e que não combinam com a pessoa, percebemos isso logo quando vemos alguém assim, por que sua roupa, apesar de marca, nada tem a ver com sua personalidade e estilo. Isso é muito trivial. Devemos usar aquilo que nos agrada e nos faz sentir bem e bonito(a), independentemente da marca, e do lugar que se comprou, se é da Marisa ou se é Opera Rock.

Por isso parafraseei Platão: “A vida sem reflexão não deve ser vivida”. A mesma coisa a moda, se não houver sentido para você compra-la, não compre. O status quo que você procura não está nas roupas, depois de ter condição para comprar as mais caras roupas das marcas mais finas, você terá o que? Quando se ascende socialmente para a alta classe, o que terá a se diferenciar dos outros ali presentes? Você terá o dinheiro igual a eles, terá condição de comprar o que quiser igual a eles, quem será você?

Não seria aproveitar muito mais seu tempo e dinheiro indo a um museu do que um desfile? Ir atrás do conhecimento, gastar dinheiro com um curso do que com uma bolsa? Mas se você tiver condições de fazer os dois e quiser, se satisfazer você fazer essas coisas, que mal há?

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