Certa manha do inverno de 1494, o jovem Michelangelo Buonarroti olhava pela janela a cidade coberta de branco. A neve que caíra durante a noite inteira cobrira as ruas, praças, igrejas e palácios, transformando Florença numa cidade de mármore. Mas a bela paisagem entristecia Michelangelo, pois lhe recordava que seu amigo e patrono, o duque Lorenzo de Médici, não mais existia. Lorenzo fora o primeiro a reconhecer o talento do jovem escultor, o recebera em seu palácio e lhe encomendara várias esculturas em mármore.

Agora, depois da morte do duque, seu filho Piero assumira seu lugar, mas era um bobo vaidoso e não via utilidade para artistas da estatura de Michelangelo. Gostava de festas, jogos e cavalos, admirava mais um cavalariço que sabia montar bem do que um mero escultor.

Uma batida na porta despertou Michelangelo de devaneio. Viu que era um dos impudentes mensageiros de Piero. O mensageiro olhou para cima e, dando com o escultor na janela, gritou:

– Desça daí, Michelangelo! É seu dia de sorte. Piero me mandou buscar o famoso escultor para uma encomenda.

Michelangelo custou a acreditar. Teria ouvido bem? Seria uma brincadeira do jovem?

– Tem certeza? – perguntou Michelangelo. – Piero nunca me chamou ao palácio.

– Pois está chamando agora. Tem um bloco de mármore enorme para você usar. Ande logo.

Michelangelo vestiu seu manto e correu escada abaixo e seguiu o mensageiro em silêncio, mas seu coração saltava a cada passo.

– É seu dia de sorte mesmo hein? – escarnecia o mensageiro cruzando a praça cheia de neve. – Trabalhar de novo para a nobre família Médici, pode existir coisa melhor?

Pouco depois chegaram ao palácio. Encontraram Piero com alguns amigos, junto à janela do aposento no segundo andar.

– Aí está! – exclamou Piero. – Deve ter pensado que eu nunca chamaria você, jovem mestre! Mas estamos precisando da sua arte hoje. Você tem mesmo muito talento, não tem, meu amigo?

Michelangelo olhou diretamente nos olhos de Piero.

– Seu pai achava que sim – respondeu sério.

Piero enrubesceu levemente, mas virou-se para a janela e continuou:

– Vou dar um jantar essa noite e quero mostrar uma bela estátua sua aos meus convidados. O material está no jardim: camadas de mármore branco com que você tanto sonha, cobrindo todo o chão. É claro que amanhã de manhã o sol derreterá sua obra de arte, mas nada dura para sempre não é?

Michelangelo empertigou-se. Não podia crer no que ouvia. Ele, Michelangelo, orgulho de Florença, fazer uma estátua de neve!

Sentiu a raiva subir em seu peito, apertar seu coração, prender sua garganta. Viu o sorriso zombeteiro de Piero e seus amigos. Teve vontade de matar, esmagar todos eles, queria sair correndo e se esconder para nunca mais ser visto por aqueles arrogantes.

Alguma coisa dentro dele no entanto o fez permanecer ali. Era um momento difícil de suportar, mas Michelangelo confiava em si mesmo. Sabia que nada seria um obstáculo à sua arte. As ondas de raiva e humilhação se desfizeram e ele encontrou uma resposta:

– Atenderei a seu pedido, nobre Médici.

Abandonou-os e momentos depois chegava ao ardim, aliviado por estar só, o olhar fixo no imaculado lençol branco estendido a seus pés.

– Vou mostrar que até a neve serve para meu trabalho – murmurou.

Começou a trabalhar com presteza. Empilhou a neve, fez um monte bem batido socando. Passou horas empilhando a neve até conseguir um bloco rígido. A massa de gelo ganhava vida. Uma figura vigorosa nascia no jardim. Afastava-se para avaliar o trabalho e voltava, alheio a tudo, exceto à sua arte.

Enfim ficou pronta a enorme estátua de neve.

Deu por terminada. Era um belo trabalho. Amanhã nada restaria dele, mas por algumas horas faria Florença mais bela. Uma exclamação de assombro arrancou Michelangelo de sua contemplação da própria obra. Piero estava parado atrás dele, boquiaberto diante do imenso homem de neve. O sorriso de escárnio tinha se transformado num brilho de admiração nos olhos de Piero, mas o olhar deslumbrado logo deu lugar a uma nuvem de tristeza.

– Neve!… Neve, não – murmurou. – E uma coisa tão bela deveria durar para sempre.

– Como poderia o tempo respeitar, se só fiz em uma tarde?

Os anos se passaram. Michelangelo conquistou a admiração de toda a Itália. Um dia foi chamado a Roma para atender uma encomenda do papa Júlio II. Cheio de entusiasmo, foi às minas de mármore de Carrara, disposto a selecionar os melhores blocos. Encantado com as pedras gigantescas, via no interior de cada uma um ser à espera de libertação por meio de seu cinzel. Necessitava só tirar os excessos, as estátuas estavam prontas.

Perguntaram várias vezes à ele por que tinha algumas esculturas inacabadas, e ele respondia que a estátua não estava mais ali.

Quando chegou a Roma, porém, o Papa havia mudado de ideia, levou-o até a Capela Sistina, um grande retângulo de altas paredes e teto em abóboda.

– Vamos decorar o teto! – disse o papa. – Você vai pintá-lo.

Michelangelo empalideceu.

– Mas sou escultor! Não sou pintor! – protestou. – Chame Rafael. Ele é excelente pintor.

– Claro que não. Rafael está ocupado. Além disso vi desenhos seus, são melhores.

Michelangelo olhou para o teto alto. Centenas de metros quadrados para se cobrir de pinturas – levaria muito tempo. Pensou nos blocos de mármore parados, inúteis por tanto tempo e estremeceu. Não era o que queria fazer! Mas engoliu a seco a raiva e o desapontamento. Não era fácil dizer não ao papa, e aceitou.

Achava um trabalho torturante, as tintas caiam em seu rosto, queimavam seus olhos, e cada vez mais odiava o papa.

– Sou escultor, não pintor! – resmungava.

Há muitos anos não pintava e receava ser incapaz. Pediu a ajuda de artistas, mas logo desistiu por perceber que atrapalhavam suas ideias e dispensou-os. Apagou tudo e recomeçou. Trabalhou sozinho no silêncio pensando que tinha que ser bem feito. Utilizando uma técnica chamada afresco, em que a pintura é feita sobre uma argamassa de cal e areia. Como esse tipo de trabalho seca rápido, antes de botar a mão na massa o italiano teve de estudar bastante quais imagens planejava recriar.

Um dia horrorizado que a superfície recém-pintada começou a mofar.

– Eu avisei que não sou pintor, Vossa Santidade! – gritou – Tudo o que já fiz estragou.

Depois descobriu que só tinha posto água demais no gesso e não prejudicara o resultado. Prosseguindo, começava a pintar o raiar do dia quando não enxergava mais as cores. Muitas noites não saia da Capela, acostumando-se tanto àquela posição sob o andaime. Mal parava para comer, contentando-se geralmente de pão. Adoeceu de exaustão e mesmo assim, prosseguia.

– Quando vai terminar? – perguntou certa vez o Papa.

– Aprendi que o aquilo que se faz com tempo, o tempo respeita. Pergunte à Piero, pediu-me para fazer uma escultura em uma tarde, depois entristeceu-se que no dia seguinte sumira!

Gradualmente emergiram do teto as mais perfeitas dormas criadas pelas mãos humanas. Deus pai separando a luz e as trevas, a criação de Adão e Eva, a expulsão do paraíso, o dilúvio, mais de trezentas figuras, sublimes, plenas da mesma força e grandiosidade, uma após da outra do pincel de Michelangelo.

Passados quatro anos longos de fadiga e isolamento, a imensa tarefa foi terminada. O andaime retirado. As portas abertas. Quando Rafael viu a magnitude da obra, agradeceu por nascer no mesmo século que Michelangelo. E o Papa Júlio II viu a obra pela primeira vez, atordoou-se, ajoelhou-se e orou: “Senhor, não imputes a mim o pecado que cometo, sinto esplendores irreais na minha alma, que se arrepia, quando chegar o dia do juízo”.

Como Michelangelo havia dito, o tempo respeitara sua obra, que persistiu durante os séculos até hoje.

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