Título Original: O Cheiro do Ralo

País:  Brasil

Ano:  2006

Duração:  112 minutos

Gêneros:  Comédia

Direção: Heitor Dahlia

Roteiro:  Heitor Dahlia, Lourenço Mutarelli, Marçal Aquino

Elenco:

Selton Mello
Alice Braga
Silvia Lourenço

Formato: RMVB

Tamanho:  326 MB

Sinopse:

Lourenço (Selton Mello) é o dono de uma loja que compra objetos usados. Aos poucos ele desenvolve um jogo com seus clientes, trocando a frieza pelo prazer que sente ao explorá-los, já que sempre estão em sérias dificuldades financeiras. Ao mesmo tempo Lourenço passa a ver as pessoas como se estivessem à venda, identificando-as através de uma característica ou um objeto que lhe é oferecido. Incomodado com o permanente e fedorento cheiro do ralo que existe em sua loja, Lourenço vê seu mundo ruir quando é obrigado a se relacionar com uma das pessoas que julgava controlar.

Download

 

Comentário:

O Cheiro do Ralo é um dos melhores filmes nacionais que já assisti, é complexo e com um clima que foge do senso comum. Durante a introdução do filme não percebemos tanto a sua originalidade e intenção. Mas o filme transforma-se conforme os minutos passam. Tem um humor negro muito sutil, concretizado em ninguém menos que Selton Mello e sua bela voz rouca.

Lourenço é um personagem muito complexo, com muitas nuance que Selton Mello conseguiu atuar e impressionar sem problemas, fez do repugnante, o apreciável. Com um paradoxo em sua personalidade, que é apresentado por “antes” e “depois” do surgimento do odor horrível exalado pelo ralo de seu escritório. Por que o ralo é a concretização da parte “ruim” de Lourenço, que vê, literalmente, sua vida indo pro ralo. Acreditando ter algo superior, o ralo é o caminho para o inferno. Muitos povos antigos viam o inferno totalmente diferente da concepção Cristã, acreditavam que eram como mangues fedorentos, Lourenço, visita o inferno fedorento ainda vivo. Começa então a abusar de seu pequeno império. Torna-se um tirano, em certa cena, muito feia por sinal, propõe para uma de suas clientes, uma viciada em drogas, que exponha seu corpo nu, porém faz questão de que ela afirme que se o fizer é por que assim quer, por que ele não a está obrigando. E de fato, não estava. Mas, acredito que ele necessitava ouvir aquilo para ficar com a consciência tranquila.

A película contém uma estética muito feia, o filme chega a ser nostálgico em certas horas, mas ainda sim é poético, com conteúdo e reflexões. Cinza, com poucos cenários, mas que não nos distraímos. Frases e diálogos inesquecíveis, que, mesmo que não consigamos captar de primeira seu significado, marcam-nos:

“Eu não quero casar com a bunda, quero comprar ela pra mim.” Que mostra o medo do protagonista de envolver-se com a garçonete, e ainda, de não acreditar conseguir. Depois, quando esta percebe a visão que ele tem dela, como se fosse um objeto comprável, sente-se prostituída e chora, dizendo que ele poderia ver de graça. O que é mais interessante, é que apesar de ter se mostrado tão ofendida, depois ela acaba se vendendo para ele, como se fosse inevitável ocorrer. Realmente existem pessoas que pensam que dinheiro compra tudo, mas o que importa é se você pensa isso, se pensar que as pessoas são coisas compráveis, você também se tornará comprável.

Lourenço compra objetos inúteis, o que mostra como sua vida é, como está rodeado de coisas que são inúteis e sem valor. Acha que tudo pode ser comprado. No fim, reflete, e mostra seu aprendizado, sua melhoria, como evoluiu em pensamento:

”De todas as coisas que eu tive, as que mais me valeram, das que mais sinto falta, são as coisas que não se pode tocar. São as coisas que não estão ao alcance das nossas mãos. São as coisas que não fazem parte do mundo da matéria.”

“Ele nunca me viu. Nunca soube o quando o amei. Ele foi. Eu fiquei. Ele é mais triste que eu. Porque talvez ele não tenha ninguém. E eu tenho ele. Meu pai Frankenstein.”

Lourenço conta sobre seu pai, inventa histórias absurdas. Até que surge um olho, que diz ser de seu pai, que morrera na Segunda Guerra Mundial, o que é uma grande mentira, por que o comprara. O Olho é um cumplice seu, o seu “grilo falante”. Lourenço diz que o olho ainda não viu de tudo, por isso o leva para todos os lugares, como se assim, este o impedisse de fazer as coisas que reprimiu. Diante de tantos delírios, chego a pensar que o Olho era seu próprio consciente.

As metonímias não param por aí, o quadril da garçonete é outra figura de linguagem concretizada. Em vez de dizer ou ser capaz de se apaixonar pela mulher inteira, apaixona-se somente por uma parte de seu corpo. E, por pensar que “Mulher é tudo igual se você bobear os convites vão pra gráfica”, acredita que isso aconteceria de novo. É um personagem muito instável, inseguro que tinha um relacionamento sério, e ia casar, mas, desistiu, aparentemente sem motivos. Depois tenta se justificar com a empregada, dizendo que a culpa foi do ralo, que estava fedendo. Podemos muito bem entender a metáfora nessa sua justificativa, estava o ralo fedendo, não literalmente como o filme demonstra, mas abstratamente, em sua vida, Lourenço sentia que estava fedendo, algo ali, em volta de si, na sua vida. Acreditou então que terminar o seu relacionamento seria a solução, por que ignorara que o problema poderia ser com ELE mesmo. Sua noiva parecia também ser perturbada, por que tentara suicídio depois da separação, e perseguia o ex., entretanto, será que o problema era só ela? Esse é o problema de muitas separações, ocorrem sem muita explicação, as pessoas acabam rompendo relacionamentos de anos e anos por motivos que elas mesmos desconhecem, só percebem que “o ralo tá fedendo”, e nunca pensam que o problema é com elas mesmos. A culpa é sempre do outro.

 

Nota IMDB

Anúncios