Nossas mãos não são culpadas se um prato quebra. Se há pessoas sofrendo preconceitos, não é culpa nossa se há 2500 pessoas coletando lixo do outro lado da cidade, não foi culpa de ninguém.

E é assim que muitos pensam. Indignam-se e até se emocionam por causa do jornal que pode passar notícias de uma forma exagerada para prender as pessoas. Mas depois que ele acaba e a novela começa, e a fome vem e todos estão conversando, muitos se esquecem do que aconteceu ou ainda podem achar que jornais são ruins por passarem histórias tristes e passam a não quererem assisti-lo para não se sentirem culpados.

Mas vamos culpar o ninguém por isso. O Sr. Ninguém está cansado de ser culpado por todos os erros da humanidade. Há 2500 pessoas coletando lixo do outro lado da cidade porque há milhares o produzindo, sem querer saber para onde ele vai. Pilhas, papéis com planos desenhados, computadores, fetos, comida, banheiras… Tudo vai para o lixão, orgânicos e inorgânicos, envoltos em uma sacolinha que demora anos, vidas para se transformar em outra coisa, e ainda assim, ninguém se importa com o lixo. Como todos dizem a culpa é de ninguém. De ninguém dar valor ao lixo, de ninguém respeitar um trabalho sujo, porém digno, de um catador de lixo. Talvez se houvesse respeito com essas pessoas, mais iriam trabalhar no lixão, talvez aprendêssemos a não consumir tanto, mas isso é contra o sistema…

Mas um artista, não daqueles que produz arte em massa pra vender, e sim um artista que percebeu que havia algo errado. Pensava: “Porque aquelas pessoas trabalham ali, será que são felizes?”, decidiu visitá-los. “Será que ali havia arte?” – Devia ter pensado. Quis trabalhar com eles, conhecê-los. No meio do lixão habitavam pessoas como tantas outras, havia inspiração para a arte como em todos os lugares, uma arte que poderia mudar a vida daqueles moradores do lixo que não a conheciam. Observou e percebeu que todos ali eram felizes e orgulhosos sem a conhecerem, nem essa, nem as outras formas de arte e de vida. Sem acreditarem que são grandes personagens, e o artista que ali ficou, aprendeu a ser feliz ao lado delas. Por tratá-las como iguais, conseguiu o que desejava e algo além, amigos. Os elevou para o mundo das artes e depois foi embora, sabendo que tinha feito algo bom, e as pessoas que ficaram ali, sabendo que havia arte ali quando quisessem lembrar dos momentos bons com o artista.

Essa história aconteceu com Vik Muniz,um artista plástico e com os trabalhadores do maior aterro sanitário do mundo, no Rio de Janeiro. Fez dali seu estúdio e gravou tudo para que pudesse ser visto para quem quisesse entender que porque “para o criador, com efeito, não á pobreza nem lugar mesquinho e indiferente.” (Rilke).

Woman Ironing ~ Vik Muniz

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